Entrevista e texto: Valéria Avelino
Naturalidade: Salgado de São Félix – PB // Radicado em João Pessoa – PB
Nascimento: 23 de outubro de 2004
Atividades artístico-culturais: Artista visual
E-mail: hebertsilva.hf@gmail.com
Instagram: @hebert_art
Portfolio: https://canva.link/aebxtvlzi1ftliv
Hebert Francisco Silva é artista visual e discente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde faz graduação em Licenciatura em Artes Visuais. Sua pesquisa poética busca retratar a comunidade LGBTQIAPN+ e principalmente casais homoafetivos relacionando-os com iconografias clássicas sobretudo católicas, além de trazer uma abordagem sobre memória e afeto do que vivenciou.
Em sua vivência Hebert Francisco relata que desde sempre gostou de brinquedos, objetos e arte relacionados ao mundo feminino e ressalta como foi marcante para sua trajetória enquanto menino ser criado por sete mulheres. Para ele olhar de uma perspectiva do feminino e masculino nunca existiu já que sempre observou os objetos de forma integrada, essa sensibilidade, contudo, trouxe empecilhos para sua infância e adiante menciona as dificuldades de ser um homem gay em sua cidade natal. Um ponto importante que foi sinônimo de liberdade para ele foi quando veio para João Pessoa cursar Letras Francês e acabou migrando para o curso de Artes Visuais e a expansão de repertório e a visibilidade alcançada por suas obras permitiram ao artista compreender a dimensão e a pluralidade do mundo.
A prática artística sempre integrou sua rotina. Antes mesmo de iniciar de forma profissional Hebert Francisco sempre gostou de pintar, desenhar, costurar e fazer maquetes e miniaturas para suas bonecas, além disso desenvolveu suas técnicas artísticas de forma autodidata buscando referências na internet e, mais tarde, aprofundando-as no ambiente acadêmico. Ademais, ressalta que ao descobrir que sua família paterna possuía muitos artistas, sua paixão pela arte intensificou.
A carreira acadêmica e profissional do artista teve seu início aos 19 anos, quando participou da exposição Voo Livre, que foi sua primeira e ocorreu na galeria lavandeira localizada na UFPB. Na ocasião, apresentou a obra “Gravado em mim” que foi posteriormente vendida internacionalmente, momento que ele destaca como um dos marcos mais importantes de seu percurso. Esteve presente também na exposição Fluxos anti naturais: experimentações em xilogravuras na estação Cabo Branco em conjunto com a UFPB. Recentemente, integrou a exposição Avessos, fruto da residência artística Resisto, coordenada pelo professor Robson Xavier com curadoria de Robson Xavier e Lucas Alves. Realizada no Conventinho com um coletivo de dez artistas, a mostra contou com a exibição da sua série de obras “Com homem te deitarás, como se fosse homem; abençoado é”. O trabalho de título “La Petite Mort” que pertence a série alcançou grande repercussão por retratar dois homens em momento de afeto pintados sobre um tecido utilizado para fazer roupas de padre que acabou gerando um forte diálogo com a sacralidade do espaço. Além disso, participou do primeiro coletivo de arte vestível do curso de Artes Visuais ministrado pela professora Marina Pessoa.
Aprofundando-se em sua poética carregada de sensibilidade, Hebert Francisco relata que, por ser natural de Salgado de São Félix, uma região de forte tradição católica, seu trabalho é guiado por abordagens iconográficas e iconológicas. A partir dessas influências, suas obras retratam tanto as amarras que o cercaram durante a juventude quanto a memória dos afetos e relacionamentos que vivenciou. Além disso, salienta que seu trabalho desempenha um papel relevante no cenário paraibano ao desconstruir o estereótipo do homem nordestino bruto e insensível, frequentemente reproduzido pela mídia. Para o artista, suas criações funcionam como um espaço de liberdade para a expressão de gênero e sexualidade no contexto contemporâneo, trazendo à tona silenciamentos históricos. .
Ele discorre também: “Retratar sobre gêneros e sexualidade vindo do interior é como carregar uma história em um corpo que ocupa lugares que um dia não foi bem-vindo, representar sobre o cotidiano de pessoas LGBTQIAPN+ na arte ainda choca e atualmente vivemos em um cenário onde o conservadorismo retorna com força e precisamos reforçar que corpos queers existem”.
Como perspectiva de futuro, o artista almeja o reconhecimento de sua trajetória e deseja que a arte se torne mais acessível a pessoas que, assim como ele no início, não tiveram contato prévio com a produção acadêmica e contemporânea, ademais tem a ambição de expor em espaços de grande prestígio, como a Bienal de São Paulo, realizar exposições internacionais e ser reconhecido por premiações de destaque, a exemplo do Prêmio PIPA. Além disso, aspira envolver-se com a moda principalmente em desfiles de marcas que admira.
Hebert Francisco expressa o desejo de que, ao conhecerem sua história, as pessoas percebam que gênero e sexualidade podem ser retratados de forma natural, livre e espontânea, sem tabus. Ele defende que a arte, mesmo quando carrega nuances eróticas, seja analisada sem preconceitos e que esses temas passam a ser debatidos com mais leveza, abertura e relevância. Seu objetivo é resgatar a memória dos que vieram antes e consolidar o valor dos artistas que, como ele, representam essas vivências no presente.
Fonte:
Entrevista realizada com Hebert Francisco por Valéria da Silva Avelino em 20 de agosto de 2026.