Pesquisa, entrevista e texto: Beatriz Lima
Naturalidade: João Pessoa – PB // Radicada em Alhandra – PB
Nascimento: 13 de dezembro de 1955
Atividades artístico-culturais: cultura popular, tradição oral, Jurema Sagrada, práticas de cura, benzeção e artesanato
Instagram: @cantinhodosbenzedores
Nascida em 13 de dezembro de 1955, em João Pessoa – PB, Raquel Nery de Freitas é curandeira, juremeira, artesã e responsável pelo Cantinho do Benzedor, localizado em Alhandra, município onde chegou em 1988. Tendo escolhido a cidade para desenvolver sua missão e compartilhar seus conhecimentos com a comunidade, dedica-se, desde a infância, segundo seu relato, às práticas de cura e ao cuidado de pessoas por meio da espiritualidade. Hoje, seu trabalho envolve os atendimentos realizados no espaço, a orientação de pessoas que procuram desenvolver seus dons e a construção de um lugar que possa acolher outros praticantes da Jurema no futuro.
Raquel conta que seu dom da cura se manifestou aos sete anos. Na época, seus familiares já a procuravam para ajudar outras pessoas. Ao longo da vida, passou por dificuldades pessoais e familiares, teve três filhos e ficou viúva. Mesmo durante os períodos mais difíceis, relata que as entidades continuaram presentes, orientando-a sobre como agir. Curiosa por natureza, costuma questionar as orientações que recebe e procura compreender os motivos por trás delas.
A criação do Cantinho do Benzedor começou a tomar forma em 2018, quando surgiu a oportunidade de negociar um terreno. Antes disso, Raquel atendia em um espaço pequeno e barulhento. Segundo ela, uma entidade havia prometido que encontraria um lugar mais adequado para seu trabalho, com condições de receber as pessoas. Dois meses depois da orientação, um homem chamado Manoel insistiu para que ela negociasse o terreno. Naquele momento, Raquel não se lembrava da promessa, mas, ao perceber a presença espiritual, associou a proposta ao que havia ouvido anteriormente. A negociação aconteceu em 2018, e ela começou a trabalhar no local em 2019. O terreno, que inicialmente tinha apenas mato e buracos, passou a abrigar o projeto que desenvolve até hoje.
Com cerca de um hectare e meio, o Cantinho do Benzedor é, para Raquel, um espaço de paz, meditação e continuidade do trabalho de cura. O nome, segundo ela, foi escolhido pelas entidades. A escolha também se relaciona à preocupação com os benzedores, que enfrentam preconceito e intolerância religiosa. Ao longo de sua caminhada, Raquel recebeu pedidos de ajuda de pessoas idosas que praticam a Jurema e que, quando adoecem, podem sofrer pressão de familiares para abandonar suas crenças e seguir outras religiões. Por isso, deseja que o Cantinho seja um lugar onde essas pessoas possam encontrar acolhimento e dignidade. Seu projeto não se limita ao período em que estiver à frente do espaço: espera que o local continue servindo a esses praticantes mesmo depois de sua ausência.
As rezas e os atendimentos realizados por Raquel são gratuitos. Ela explica sua decisão com a frase: “Dai de graça o que de graça recebestes”. Contribuições são aceitas quando oferecidas espontaneamente, mas ela não cobra pelas curas nem pelas rezas. Além de atender quem a procura, também orienta pessoas que reconhecem em si dons espirituais e desejam desenvolvê-los. Em sua compreensão, a mediunidade não é algo que se compra: cabe a cada pessoa aceitar e compreender sua missão.
Para Raquel, exercer essa missão também exige responsabilidade sobre a própria conduta. Ela entende que quem trabalha com a cura deve fazer o bem e jamais usar seus dons para prejudicar alguém. Em sua visão, a mão que cura e reza não pode fazer o mal, pois até mesmo ao dizer “Deus te abençoe”, a pessoa está pedindo que Deus conceda uma bênção ao outro. Essa responsabilidade se estende à maneira de viver: Raquel afirma que precisa vigiar suas palavras, suas atitudes, sua forma de se vestir e de se comportar.
A procura pelo trabalho de Raquel reúne pessoas de Alhandra, João Pessoa, Recife e outras localidades da região. Os atendimentos costumam acontecer a cada quinze dias. Quando muitas pessoas desejam comparecer ao mesmo tempo, ela organiza os encontros em datas diferentes para conseguir recebê-las. Raquel conta que o que a motiva a continuar é acompanhar quem chega fragilizado e, depois de algum tempo, demonstra recuperar a disposição para viver. Apesar disso, relata que o trabalho também traz sofrimento e julgamentos. Ao falar sobre as dificuldades, afirma: “Vocês que estão chegando saibam que não é fácil você ajudar uma pessoa e essa pessoa virar a cara depois, fingir que não te conhece por vergonha”.
O reconhecimento de sua trajetória como profunda conhecedora da cultura popular levou-a a atuar oficialmente no município de Alhandra como representante titular do Núcleo Espírita e Religião de Matriz Africana. Sua nomeação formal ocorreu por meio de portaria do Gabinete do Prefeito, com o objetivo de compor conselhos ou comissões de representação de diversidade religiosa e sociedade civil na cidade.
O Cantinho do Benzedor continua em construção. Raquel conta que o projeto prevê sete cidades sagradas dentro do terreno, com locais já escolhidos. Ela reconhece que não dispõe de recursos financeiros para realizar todas as propostas no ritmo que gostaria, mas mantém o propósito de desenvolver o espaço. Sobre a Jurema, afirma que “a Jurema é ciência” e destaca a força da natureza, embora reconheça que nem tudo relacionado à espiritualidade encontra uma explicação.
Fontes:
Entrevista com Raquel Nery de Freitas, realizada por Beatriz Lima em outubro de 2026.
Instagram oficial do Cantinho dos Benzedores
Portaria Municipal do Gabinete do Prefeito de Alhandra (Publicação Oficial em Diário Oficial).