Pesquisa e texto: Jonas do Nascimento dos Santos
Local: Comunidade Quilombola Matias, Serra Redonda-PB
Idealizadores: Grupo Cultural Art Candango
Tema: Cultura afro, audiovisual, cinema, matriz africana, identidade quilombola
Parceiros: Financiamento via edital cultural da Paraíba; apoio da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba; apoio da comunidade quilombola e parceiros locais
Organização: Grupo Cultural Art Candango, em parceria com a comunidade quilombola
Programação: Sessões de cinema; rodas de conversa; oficinas audiovisuais; feira de artesanato; moda africana; comidas típicas; atividades culturais afro-brasileiras (música e dança)
Público-Alvo: Comunidade local quilombola, artistas, estudantes, pesquisadores, público em geral interessado em cultura afro e cinema comunitário
Objetivos: Valorizar a cultura de matriz africana; fomentar o audiovisual em comunidades quilombolas; promover reflexões sobre ancestralidade, identidade e representatividade; fortalecer o pertencimento cultural local
Observações Adicionais: Projeto contemplado em edital de chamamento público na Paraíba; evento divulgado também em redes sociais e mídias digitais; integra cinema, cultura afro e formação comunitária em audiovisual
Instagram: @art_candango
A Mostra Cultural de Matriz Africana – Cinema no Quilombo é uma iniciativa que pulsa na comunidade quilombola do Matias, no município de Serra Redonda, Paraíba, com o objetivo de entrelaçar cinema, ancestralidade e identidade cultural negra em espaços historicamente marginalizados. Idealizada e executada pelo Grupo Cultural Art Candango, a mostra busca fortalecer os laços comunitários, promover o protagonismo cultural negro e fomentar a produção audiovisual local. A escolha do formato “Cinema no Quilombo” é simbólica: levar a sétima arte para territórios de memória afro, para que vozes negras dialoguem com imagens, narrativas e representações visuais próprias. As edições da mostra ocorrem em datas pontuais — não há, até agora, registro de periodicidade fixa anual constante — e são viabilizadas via editais públicos culturais e parcerias institucionais. Em um desses editais estaduais, o projeto foi contemplado com valor de R$ 50 mil para sua realização, via chamamento público da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba. Esse aporte permite cobrir gastos logísticos, técnicos, produção de oficinas, divulgação, aluguel de equipamentos e estrutura para exibições dentro da comunidade. Essa fonte institucional assegura parte da viabilidade do evento e demonstra como iniciativas culturais periféricas podem entrar em circuitos de financiamento formal.
No momento de execução, a mostra oferece uma programação diversificada que vai além da simples exibição de filmes. Entre suas atividades, destacam-se sessões de cinema que trazem narrativas de matriz africana, temas relacionados à ancestralidade, resistência e representatividade negra. Essas sessões costumam vir acompanhadas de rodas de conversa, nas quais os espectadores e realizadores dialogam sobre os filmes, suas mensagens simbólicas e conexões com a realidade local. Paralelamente, oficinas de audiovisual e produção midiática são ofertadas — como formação para jovens e interessados no uso de câmeras, edição, roteiros e técnicas básicas de vídeo — promovendo a apropriação dos meios de expressão visual na comunidade. Complementam a programação atividades culturais que resgatam expressões afro-brasileiras: feiras de artesanato local, exposição de moda africana, venda de comidas típicas de matriz africana e espaço para manifestações musicais e de dança, conectando arte, gastronomia e identidade. Ao integrar esses elementos, a mostra reforça o sentido de pertencimento e autoestima cultural entre moradores quilombolas e visitantes. A ambientação no quilombo, nas ruas ou espaços comunitários, potencializa o caráter simbólico da ocupação cultural: a comunidade é palco e plateia de suas próprias narrativas.
O evento exerce um papel potente de cultura como resistência. Ele reverte um cenário em que comunidades negras historicamente foram silenciadas nas narrativas hegemônicas, permitindo que olhares locais projetem-se em tela grande. Jovens que participam das oficinas adquirem conhecimento técnico e simbólico — descobrem que o cinema pode ser uma ferramenta de denúncia, memória e autonarrativa. As rodas de conversa ajudam a contextualizar as obras não como arte isolada, mas como elementos de construção simbólica de identidade racial, resiliência e diálogo entre passado e presente. Para a comunidade de Serra Redonda, especialmente no quilombo, a mostra funciona como catalisador cultural: estimula a circulação de ideias, aproxima pessoas de outras localidades interessadas em cultura negra, cria vínculos com agentes culturais externos, e empreende um processo de visibilização que reverbera além da localidade. Também representa uma oportunidade de formação, ao inserir o audiovisual no universo de quem talvez nunca tenha tido contato com ele de modo estruturado.
A iniciativa conta com desafios logísticos e estruturais: o transporte de equipamentos, a montagem de projeção em locais rurais, a adaptação de espaços sem infraestruturas específicas, e a mobilização comunitária são parte da rotina de planejamento. Mas são justamente essas fragilidades que reforçam seu mérito social: mostrar que investir cultura negra em território quilombola exige ousadia, articulação local e parcerias sensíveis à realidade local. O valor simbólico da Mostra Cultural de Matriz Africana – Cinema no Quilombo reside na sua capacidade de entrelaçar a arte cinematográfica com a memória e a resistência afrodescendente. Ao colocar o cinema no centro do quilombo, traz-se também o poder imaterial da imagem para dialogar com as lembranças, os corpos, as vozes e os sentidos da comunidade. Nesse sentido, o evento transcende a lógica de espetáculo: ele se configura como um espaço de educação popular, cultura viva e reforço de identidade negra.
Cada edição constitui uma narrativa coletiva, que congrega moradores, agentes culturais, artistas, estudantes e curiosos. A mostra é, portanto, uma ponte entre o local e o mundo cultural negro mais amplo, fazendo com que o quilombo do Matias participe de circuitos de visibilidade artística e memória afro. A presença de rodas de conversa fortalece o diálogo entre cinema e vivência local, e as oficinas investem no protagonismo cultural de jovens que podem tornar-se futuros realizadores em sua própria comunidade. Em síntese, esse evento é uma expressão robusta de como cultura, ancestralidade e arte podem circular em territórios quilombolas, construindo redes de resistência simbólica e ampliando o horizonte artístico negro no interior do estado da Paraíba. Ele reafirma que expressar o negro em filme, voz e forma não é apenas celebração estética — é ação política, memória viva e possibilidade de autonomização cultural.
Fontes:
https://mapacultural.pb.gov.br/projeto/366/#info
https://www.instagram.com/p/DHw3eHvvE3M/