Entrevista, pesquisa e texto: Otávio Tavares
Naturalidade: Pernambuco / radicada em Santa Rita – PB
Atividade cultural: sacerdotisa de Umbanda e Jurema
Título: Doutora Honoris Causa pela UFPB
Nascida no interior de Pernambuco, Rita Maria da Conceição veio morar ainda muito pequena na Paraíba, em Itabaiana, onde ficou até os 16 anos, depois disso chegou a morar por um mês com uma tia em Cabedelo e na década de 1940 veio para Santa Rita.
Na cidade dos canaviais morou inicialmente com sua madrinha na Rua Cardoso Vieira e ajudava a mesma vendendo banana. Depois de um tempo, a mãe de Rita decidiu construir uma casa de taipa para morar, agora na Rua Bela Vista. A tal casa de taipa foi vendida e Rita foi morar na Rua Nilo Peçanha, onde reside até hoje.
Ainda na década de 40, Rita foi iniciada na Jurema, na cidade de Alhandra, como ela mesmo relatou: “Passei sete dias deitada numas folhas de mato, coberta de folha, sem travesseiro, sem lençol e coberta de mel”.
Rita, transgressora desde sempre, fez algo impensável para sua época. Casada aos 14 anos, aos 26 se separou do marido por conta do racismo religioso que ele praticava com ela.
Na Nilo Peçanha, no Bairro da Viração – atual bairro da Santa Cruz -, Rita Preta, que recebeu esse nome de um caboclo, juntou-se a Carlos Leal que chegara do Rio de Janeiro com a ideia de criar uma federação que lutasse pela libertação dos cultos umbandistas na Paraíba. Na década de 60, Rita foi iniciada na umbanda por Carlos Leal, saindo da clandestinidade em 1966 fundou o Templo de Umbanda Caboclo José de Andrade e chegou a viajar por vários estados do Brasil participando de congressos de umbanda, se tornando referência local e nacional.
Mãe Rita é altamente respeitada no bairro da Santa Cruz, tanto pelos frequentadores de seu templo quanto por pessoas de outras religiões. Mãe Rita se alfabetizou e alfabetizou outros tantos em seu terreiro, sendo uma referência não só religiosa, mas também social.
Em dezembro de 2024, em seu Templo, Mãe Rita Preta recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) das mãos da reitora Terezinha Domiciano. A propositura foi feita pelo professor do Departamento de Ciências da Informação da instituição, professor Valdir Efun Lima e Lourenço de Santa Rita e pelos professores Carlos André Macedo Cavalcanti e Lusival Antônio Barcellos, ambos do Departamento de Ciências das Religiões também da UFPB.
“Além da homenagem a ela, que ela merece por todo seu tamanho, por toda dedicação, uma mulher que sempre trabalhou com caridade, com cura, mas também para reparar as outras pessoas que não puderam ser homenageadas”, comentou o professor Valdir sobre a propositura do Título para a sacerdotisa.
Valdir conheceu Mãe Rita Preta pessoalmente quando a entrevistou para seu TCC na graduação de história pela UFPB, que teve como tema os bairros da cidade alta de Santa Rita.
“Foi muito forte o meu contato com aquela mulher, parecia que eu estava de frente a uma divindade”, relatou Valdir.
Após isso eles foram criando vínculos afetivos. Em 2004 ele começou a frequentar o templo e em 2007 foi iniciado na umbanda e na jurema por Mãe Rita.
“Mãe Rita Preta é um marco na minha vida. Após ela eu tive coragem de sair do armário da religião. Quando eu vi aquela mulher preta livre, num bairro periférico, reconhecida e respeitada, aquela mulher grande, ela foi a segurança que eu precisava”, falou o professor.
Hoje centenária, Rita Maria da Conceição, a Mãe Rita Preta de Oxalá é testemunha ocular do passar do tempo no bairro da Santa Cruz e na cidade de Santa Rita, figura central de diversas produções audiovisuais e trabalhos acadêmicos e ainda é símbolo de resistência feminina e afro-religiosa na Paraíba e no Brasil inteiro.
Fontes:
Entrevista concedida por Valdir Efun Lima e Lourenço de Santa Rita a Otávio Tavares em outubro de 2025
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