Produzido no estúdio DoSol, álbum de estreia mistura rock psicodélico, atitude pop e vivências da artista paraibana

Gustavo Roberto*
A cantora, compositora e artista paraibana Flávia Belmont, conhecida pelo projeto musical Flau Flau, acaba de lançar seu primeiro álbum, “Íntimo Oriental”, uma obra que mistura sensibilidade, experimentação e referências que atravessam gerações. O disco é um convite ao mergulho em um território geográfico e afetivo: o extremo oriental das Américas, onde a artista nasceu, e seu vasto universo emocional.
A relação de Flau Flau com a música começou ainda na infância, em João Pessoa, quando passava horas na sala de casa ouvindo as trilhas sonoras de novela escolhidas por seu pai. Entre a melancolia de “Devolva-me”, na voz de Adriana Calcanhotto, e a doçura de “Mensagem de Amor”, de Lucas Santtana, a música se tornou afeto e memória. As influências pop, de Rouge às Spice Girls, se misturaram ao cancioneiro d’O Grande Encontro, moldando o filtro que hoje transforma suas vivências em canções de identidade brasileira marcante.
A vontade de subir ao palco veio mais tarde, inspirada pela liberdade estética de bandas como Warpaint e Boogarins, além da força catártica de um show do Blonde Redhead. “Eram composições que tinham a ver com o que eu sinto e não consigo nomear”, conta. A busca por nomear sentimentos guiou anos de experimentação no violão, até se transformar nas faixas que compõem o álbum.
“Íntimo Oriental” foi integralmente produzido sob direção de Paulo Emmery, conhecido por trabalhos com Letrux, Jadsa e Jards Macalé. O disco carrega uma paleta sonora que dialoga com o rock paraibano de Cátia de França, a atitude pop de Marina Lima e o psicodelismo de Tame Impala. Membros da banda Boogarins também participam da gravação.
O título é um jogo de palavras com o “Extremo Oriental”, referência à posição geográfica de João Pessoa, que aqui se converte em metáfora para a introspecção e a descoberta de si.
Integrante da comunidade LGBT+, Flau Flau imprime em sua obra uma perspectiva própria, livre de amarras e marcada pela honestidade afetiva.
“Falo dos meus relacionamentos nas letras e sou lésbica, simples assim”, afirma. “Ser sapatão me dá liberdade de transitar entre o masculino e o feminino, de ser roqueira sem depender de um homem cis pra dizer o que devo gostar nesse mundo. Eu pego o que acho bom e transformo em meu”.
Essa autenticidade se reflete no discurso e na sonoridade, criando pontos de identificação com mulheres e pessoas LGBT+ que encontram na música um espaço de acolhimento e força.
No fim, “Íntimo Oriental” é um álbum sobre encontros da artista consigo mesma, do público com suas próprias memórias e da coletividade que se forma na plateia. Em faixas como “Free To”, sua preferida, Flau Flau propõe um clima para “dançar de forma relaxada enquanto se pensa sobre o que, afinal, significa ser livre”.
Ouça o álbum ‘Íntimo Oriental‘.
*Com assessoria