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Data de publicação do verbete: 03/01/2026

É Tudo Improviso

É Tudo Improviso

Festival de filmes de longa-metragem produzidos no interior paraibano.

Pesquisa e texto: Jonas do Nascimento dos Santos

Natureza: Festival de cinema

Abrangência: Paraíba 

Foco curatorial: Exibição e valorização de filmes de longa-metragem produzidos no interior paraibano, realizados majoritariamente fora dos grandes centros urbanos, com forte caráter autoral, comunitário e independente.

Ano de criação: 2014

Objetivo: mapear, difundir e legitimar a produção de longas-metragens realizados no interior do estado. A proposta nasce da constatação da existência de um expressivo movimento de cineastas autodidatas e independentes que produziam filmes com recursos próprios, envolvendo familiares, amigos e moradores das próprias comunidades, muitas vezes à margem dos circuitos tradicionais de exibição.

Idealização e Curadoria Geral: Wills Leal

Coordenação e Articulação Local: Valdir Santos

Organização: Academia Paraibana de Cinema; Parcerias com universidades, especialmente a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio de setores culturais e acadêmicos

Realização: Projeto cultural realizado em parceria com instituições públicas, entidades culturais e prefeituras municipais das cidades-sede

Financiamento cultural: Fundo de Incentivo à Cultura (FIC) – Lei Augusto dos Anjos;  Governo do Estado da Paraíba; Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba

Apoios institucionais e culturais: Prefeituras Municipais das cidades participantes; Sebrae Paraíba; Sesc Paraíba; Universidades e instituições de ensino; Veículos de comunicação locais e estaduais

Cidades Participantes: Queimadas, Taperoá, Junco do Seridó, Soledade, Cuité, Manaíra, João Pessoa (com programação especial e debates)

O Festival É Tudo Improviso – Festival de Filmes Longa-Metragem Produzidos no Interior Paraibano nasceu em 2014 como um gesto de reconhecimento e afirmação do cinema feito fora dos grandes centros urbanos da Paraíba. Sua criação foi motivada pela percepção de que, espalhados pelo interior do estado, existia um número significativo de realizadores que produziam filmes de longa-metragem de forma independente, artesanal e profundamente conectada às suas comunidades. Esses cineastas, muitas vezes autodidatas, realizavam obras com recursos próprios, utilizando equipamentos acessíveis, improvisando cenários e reunindo familiares, amigos e moradores locais como elenco e equipe técnica. Apesar da relevância cultural e do esforço coletivo envolvido, esses filmes permaneciam invisíveis aos circuitos tradicionais de exibição e raramente eram reconhecidos como parte legítima do cinema paraibano. Foi diante desse cenário que surgiu a proposta do festival, idealizada pelo crítico, pesquisador e articulador cultural Wills Leal, figura central na história do audiovisual da Paraíba.

A ideia era simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: criar um espaço exclusivo para a exibição de longas-metragens produzidos no interior do estado, valorizando suas narrativas, seus modos de produção e seus contextos sociais. O nome “É Tudo Improviso” sintetiza o espírito do festival e das obras exibidas, remetendo à criatividade forjada na escassez, à capacidade de adaptação e à invenção como método de sobrevivência artística. Desde sua concepção, o festival assumiu um caráter itinerante, rompendo com a lógica centralizadora que concentra eventos culturais apenas nas capitais. A proposta era levar o cinema até as cidades onde os filmes eram produzidos, criando um encontro direto entre realizadores e o público local. A primeira edição percorreu diversos municípios paraibanos, incluindo cidades do agreste, do cariri e do sertão, consolidando uma circulação cultural inédita no estado. As exibições aconteciam em praças públicas, auditórios, clubes sociais, escolas e espaços improvisados, reafirmando o caráter popular e acessível do evento. Mais do que sessões de cinema, o festival se configurou como um espaço de encontro, escuta e troca de experiências. Após cada exibição, debates eram promovidos entre cineastas, público, gestores culturais e representantes institucionais. Esses momentos revelavam não apenas os bastidores das produções, mas também as motivações pessoais e coletivas que impulsionavam cada filme.

O festival passou a funcionar como um arquivo vivo da produção audiovisual do interior paraibano. Histórias locais, lendas, dramas familiares, narrativas épicas, comédias populares e experimentações narrativas encontraram ali um espaço legítimo de projeção. A curadoria priorizava a diversidade de estilos e temáticas, evitando qualquer hierarquização estética entre o cinema do interior e o cinema produzido nos grandes centros. Essa postura contribuiu para a quebra de preconceitos históricos em relação ao cinema independente e comunitário. O É Tudo Improviso também desempenhou um papel pedagógico importante, ao estimular o surgimento de novos realizadores. Muitos jovens espectadores passaram a se reconhecer nas telas e a perceber o cinema como uma possibilidade concreta de expressão. O festival mostrou que era possível fazer cinema a partir do próprio território, sem a necessidade de deslocamento para grandes polos de produção. Institucionalmente, o evento contou com o apoio de políticas públicas de cultura, especialmente por meio de mecanismos de incentivo estadual. Parcerias com universidades, entidades culturais e prefeituras municipais foram fundamentais para viabilizar sua itinerância.

Ao longo de sua trajetória, o festival consolidou uma rede de realizadores do interior, fortalecendo vínculos e estimulando colaborações entre diferentes cidades. Essa rede passou a trocar equipamentos, conhecimentos técnicos e experiências narrativas. O festival também contribuiu para a preservação da memória audiovisual paraibana. Muitos filmes exibidos no É Tudo Improviso jamais haviam sido projetados em tela grande antes do evento. Alguns deles foram realizados anos antes e permaneciam guardados apenas em acervos pessoais. Ao exibi-los, o festival devolveu essas obras às comunidades que as originaram. A chegada do festival à capital João Pessoa ampliou ainda mais seu impacto simbólico. Ao levar os filmes do interior para a capital, o evento inverteu a lógica tradicional de circulação cultural. Essa movimentação reforçou o entendimento de que o cinema paraibano não se resume à produção urbana ou litorânea. O É Tudo Improviso passou a ser reconhecido como um marco na história do audiovisual do estado. Sua importância não reside apenas na exibição de filmes, mas na legitimação de modos alternativos de produção cinematográfica.

O festival revelou que improviso não significa precariedade, mas inventividade. Que limitações podem se transformar em linguagem. Que o cinema é, antes de tudo, um gesto coletivo de comunicação e pertencimento. Ao longo do tempo, o evento ajudou a construir uma narrativa própria sobre o cinema do interior paraibano. Uma narrativa feita de resistência, persistência e paixão pela arte de contar histórias. O É Tudo Improviso reafirmou que o cinema nasce do desejo de narrar o mundo a partir de um lugar específico. E que esse lugar, muitas vezes esquecido pelos grandes circuitos, é também um centro legítimo de criação. Assim, o festival se inscreve como uma experiência fundamental na memória cultural da Paraíba. Um evento que transformou improviso em método. Escassez em potência criativa. E o interior em protagonista do próprio cinema.

Fontes: 

https://wscom.com.br/midias-entretenimento/2014/04/10/chuvas-adiam-e-tudo-improviso-na-cidade-de-queimadas-festival-comeca-nesta-qu/

https://jornaldaparaiba.com.br/cultura/fazedores-de-filmes

https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2014/05/festival-de-filmes-e-tudo-improviso-chega-joao-pessoa-nesta-terca.html

 

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