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Data de publicação do verbete: 04/02/2026

Julho é um bom mês pra morrer

Julho é um bom mês pra morrer

Livro.

Pesquisa e texto: Maria Beatriz Paulino

Autor: Roberto Menezes

Gênero: Literatura brasileira contemporânea

Ano de publicação: 2015 – Editora Patuá, 216 páginas

Tema: Isolamento, abandono maternal, identidade fraturada e homoerotismo

Em Julho é um bom mês para morrer, percebe-se uma narrativa contemporânea impregnada pela solidão e memória fragmentadas. Essa dinâmica é percebida pelas digressões da narradora-personagem enquanto escreve sua carta de “prestação de contas” com a mãe, com sua avó, com seu passado, com as culpas internas e com a própria vida. 

Laura é uma blogueira de trinta e cinco anos que enfrenta um abandono materno que a coloca em uma busca por respostas distantes. Desafiando uma sentença judicial e ignorando os avisos de demolição, ela recusa-se a entregar o seu apartamento a uma empreiteira de João Pessoa, que conseguiu a concessão de todos os outros apartamentos de um edifício antigo em uma área nobre da capital paraibana, menos o dela. 

Ela opôs-se à venda, mas mesmo assim o seu apartamento foi desapropriado. A partir daí, Laura escreve uma carta à sua mãe, Lucy, na tentativa de preencher o vazio que faz parte da sua vida desde a infância. Nas cartas, Laura relembra sua infância, a dor do abandono, a revolta pela ausência de Lucy, pelo desfecho trágico da sua irmã e pelo descaso em relação à sua avó. 

O apartamento de Laura tem paredes desgastadas e janelas sujas, um símbolo de sua resistência contra a potência rebarbativa do progresso. O seu prédio está quase na ruína, mas ela insiste em deixar de pé o que lhe traz identidade e dignidade. Enquanto as máquinas se aproximam para demolir o prédio, ela se agarra às lembranças como se cada rachadura nas paredes fizessem parte da sua própria pele. 

Diante da rejeição e carência afetiva, Laura busca nas drogas uma maneira de preencher o vazio que rodeia os seus relacionamentos familiares e relações interpessoais. Percebe-se, então, que a avó, Noêmia, é como um eixo de transformação, e a irmã, Lara, representa a culta e auto responsabilidade nas incumbências adultas que Laura não consegue lidar.  

Teresa, professora de Laura, desperta na aluna, inconscientemente, o desejo sexual. O discurso de Laura na obra desperta a interseção entre desejo e identidade: “Hoje acordei com o cheiro dela em meu corpo. Loucura? Não. Hoje acordei me sentindo a própria Teresa. Hoje acordei com a Teresa dentro de mim”. A busca da personagem pelo desejo reflete a busca pela auto descoberta e aceitação.

Laura transforma o abandono do seu prédio em um cenário imaginário da sua infância: o abandono. Lembra dos momentos de ternura com a sua avó, dos objetos pessoais de suas dores, enquanto as cartas para a sua mãe ausente se tornam confissões íntimas com lágrimas derramadas e esperanças. Ela busca entender a razão do abandono, lutando para reconciliar a dor da rejeição com o seu amor e aceitação. Mas a presença fantasmagórica de Lara aparece para Laura e lembra das responsabilidades não assumidas.

Laura, então, vive entre o desejo de liberdade e o passado, navegando em águas turbulentas da sua identidade. A capa do livro representa esse debate: o verde-lodo engole as ruínas de uma torre. Ou seja, diante dos escombros do prédio, Laura encontra lar nas paredes de um apartamento, em busca de respostas para os seus questionamentos. A obra revela a narrativa de uma mulher solitária que luta contra as adversidades e sua própria identidade em um mundo em constante mudança. 

Além de mostrar a ideia da contemporaneidade, o autor desconstrói a ideia do Nordeste ártico, seco e marcado pela fome. Ele mostra um Nordeste urbano que problematiza questões universais. O autor se afasta do exotismo e folclorismo associados à região, desmistificando a ideia que o Nordeste é uma coisa só. 

Fontes: 

https://pracaclovis.com/?p=3935

https://www.skoob.com.br/pt/book/573628/editions

https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/enlije/2016/TRABALHO_EV063_MD1_SA15_ID911_22072016112141.pdf 

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