Livro de Pedro Índio Negro e Guga Limeira transforma as lâminas do Tarô de Marselha em signos da cultura popular nordestina e propõe movimento inverso ao tradicional: poemas que ilustram gravuras
Gustavo Roberto

Está em campanha de financiamento coletivo o livro “O Cordel do Tarô Nordestino”, obra que une artes visuais e literatura ao reinterpretar as lâminas tradicionais do Tarô de Marselha a partir de referências da cultura popular do Nordeste brasileiro. O projeto é assinado pelo artista visual e pesquisador paraibano Pedro Índio Negro e pelo poeta e compositor Guga Limeira, e será publicado pela editora Urutau, de São Paulo.
A campanha está disponível na plataforma Benfeitoria e busca viabilizar as etapas finais de produção editorial da obra.
O livro nasce de um percurso iniciado há quase uma década. Em 2016, ainda como estudante do curso de Comunicação em Mídias Digitais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Pedro desenvolveu um projeto acadêmico que resultou na criação do Tarô Nordestino, um baralho autoral que traduz os arquétipos clássicos do Tarô para signos da cultura regional.
“Esse projeto vem sendo gerado e renovado desde 2016. Surgiu inicialmente como um trabalho do curso e depois ganhou o mundo. Consegui fazer duas tiragens do baralho completo e a segunda já está quase esgotada, foram vendidas mais de 350 unidades do Tarô Nordestino”, afirma Pedro.
O baralho extrapolou o ambiente universitário, teve projeto aprovado via Lei Aldir Blanc e contou com exposição das gravuras em grandes formatos. A pesquisa visual consolidou uma proposta estética própria: figuras tradicionais do Tarô foram recriadas com referências ao imaginário nordestino, incorporando elementos da religiosidade popular, do sertão, das festas e dos personagens simbólicos da região.
A transformação do baralho em livro surgiu como desdobramento natural do projeto. Para ampliar o alcance simbólico das imagens, Pedro convidou Guga Limeira para escrever poemas em décimas, forma tradicional da literatura de cordel.
A proposta editorial rompe com a lógica convencional das publicações ilustradas. Em vez de imagens acompanharem textos, os poemas dialogam diretamente com gravuras já existentes.
“Tive a ideia de chamar Guga para fazer os poemas em décimas. Foi uma ideia inusitada, porque geralmente são as ilustrações em xilogravura que ilustram as capas dos folhetos de cordel, e não o contrário. Mas a parceria deu muito certo”, explica Pedro.
Guga define sua participação como uma “segunda tradução” do projeto. “Pedro é o grande pesquisador por trás dessa loucura que é traduzir as imagens originais do Tarô para os signos da cultura popular do Nordeste. O que eu fiz foi traduzir essas imagens para os versos”, afirma.
Segundo o poeta, o livro se constrói em camadas. “Ele começa com um estudo de Pedro, ainda na graduação, para a elaboração das imagens. Essas imagens se tornam um produto, que é o deck do Tarô, que teve projeto aprovado, exposição das gravuras, circulação. Como parte desse processo, ele me encomendou os poemas, que nunca tinham sido publicados em livro. Agora essas etapas se encontram”, detalha.
Embora atue profissionalmente com escrita em diversas frentes, da música à publicidade, Guga afirma que a experiência com o cordel tem dimensão formativa.
“Eu não me considero exatamente um cordelista, mas sou poeta, escritor, pesquisador. Escrever é a minha vida. Anos atrás, fiz um cordel por encomenda e precisei pesquisar para fazer. Acabou virando um vício”, relata.
Ele destaca também a influência da infância nesse processo. “Minha mãe colecionava, e coleciona até hoje, folhetos de cordel. Era uma literatura que circulava muito intensamente na minha casa. Foi uma leitura formativa. Quando passei a escrever nesse formato, foi um reencontro com essa criança que eu fui.”
A estrutura do livro, segundo ele, valoriza essa tradição ao mesmo tempo em que a expande. “Os textos ilustram as imagens, e não o contrário. Para mim, esse é o grande feito do livro.”
A sinopse divulgada pela editora Urutau define a obra como um “exercício profundo de tradução das tradições”. As lâminas do Tarô de Marselha são relidas com o filtro da cultura popular nordestina e, em seguida, têm seus múltiplos sentidos condensados em poemas que dialogam com as formas do cordel.
A publicação marca a estreia da parceria dos dois artistas no formato livro, embora ambos já colaborem há anos na música. “Já escrevemos dezenas de canções juntos. Algumas estão gravadas, outras ainda serão lançadas. Agora nossa parceria encontrou outra plataforma para se concretizar, que é o livro”, afirma Guga.
A campanha de financiamento coletivo foi criada para custear etapas fundamentais do processo editorial, como revisão, preparação de texto, diagramação, criação de capa, solicitação de ISBN, ficha catalográfica e impressão.
A tiragem dependerá do engajamento do público. A estimativa inicial varia entre 80 e 120 exemplares, podendo ser ampliada conforme o volume arrecadado.
Pedro destaca que a campanha também representa uma forma de fortalecer a circulação de produções independentes. “As pessoas podem conferir e garantir seu exemplar pelo site da campanha. Também me alegro e me orgulho em dizer que esse é o primeiro e único livro do tipo no mundo inteiro”, afirma.
Pedro Índio Negro é artista visual e pesquisador paraibano. Seu trabalho investiga relações entre imagem, cultura popular e narrativas simbólicas. O Tarô Nordestino é um de seus principais projetos autorais, desenvolvido inicialmente no contexto acadêmico e expandido para exposições e edições independentes.
Guga Limeira é poeta, compositor e pesquisador com atuação nas áreas de literatura e música. Desenvolve trabalhos autorais e colaborações artísticas, transitando entre a poesia, o cordel e a canção popular.
O financiamento coletivo segue aberto, e os apoiadores podem adquirir recompensas e garantir exemplares antecipados por meio da plataforma Benfeitoria.