Entrevista, pesquisa e texto: Valéria Avelino
Naturalidade: Santa Rita – PB
Nascimento: 10 de agosto de 2005
Atividade artístico-cultural: Arte educadora e Artista Visual
E-mail: ayanesantanaart@gmail.com
Instagram: @ayanesantanart
Principais obras, trabalhos ou projetos:
“Víbora” uma obra audiovisual, “corpo-mapa” série de pinturas em tinta guache sob E.V.A, “Árvores & Postes” uma série de fotografias e “O Feminino e as Conchas Marítimas: Já Fui Pérola” uma série de peças de cerâmica.
Principais prêmios e reconhecimentos:
Participação no XXXIV Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil (CONFAEB) e XII Congresso Internacional de Arte/Educadores (CONIAE) no ano de 2025.
Ayane de Santana Souza é Arte Educadora, Artista Visual e discente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde faz graduação em Licenciatura em Artes Visuais. Atualmente sua pesquisa poética busca retratar a ocupação do feminino dentro de nossa sociedade, além de abordar temas como existencialismo e sentimentalismo.
Em sua vivência, relata que, por vir de uma família de classe média, passou por diversos altos e baixos. Seus pais e avós lutaram muito para que ela e sua irmã tivessem acesso aos estudos e pudessem ingressar na universidade, ressaltando o papel fundamental dos familiares para que nunca desistisse de seus sonhos. Ela descreve, ainda, que sua produção artística passou por diversas fases, contemplando linguagens como desenho, pintura, fotografia, bordado, crochê e cerâmica.
Ela comenta: “Prezo pelo olhar naquilo que considera-se usual, pequeno e comum, pois acredito que são nesses momentos que encontramos o fazer artístico, não escondido, mas em evidência.”
Ainda sobre sua trajetória artística, ela conta não conseguir distinguir exatamente quando tudo começou: se foi ao adentrar no curso de Artes Visuais ou ao receber elogios por suas pinturas em casa. No entanto, destaca que foram os pincéis de sua avó, os lápis comprados pelos tios e as agulhas de crochê da mãe e da avó que a desafiaram a praticar o que tanto admirava. Sua família possui uma forte ligação com a arte, seja na pintura, no desenho, na costura ou no artesanato; diante disso, sempre recebeu grande incentivo para seguir esse caminho. Ayane Santana reforça que a família foi um dos principais motivos para a escolha de sua formação, permitindo-lhe enxergar um hobby como profissão. Também relembra com carinho a avó Ivone, que lhe deixou como herança seus pincéis e agulhas, ressaltando que esses materiais despertam nela o desejo de dar continuidade ao que a define: a Arte.
Ela explica que todo o conhecimento prévio que possuía foi amadurecido e desenvolvido com sua entrada na universidade. Relata que antes se sentia sozinha porque os assuntos que a interessavam não chamavam a atenção de outras pessoas, mas, ao ingressar na graduação, pôde se reunir com indivíduos que exploravam diferentes vertentes e formas de lidar com a arte. Para Ayane, as disciplinas práticas e teóricas despertaram a percepção de que sua arte pode impactar alguém e carregar um significado muito mais profundo. Ela afirma: “Com o aprofundamento do repertório sociocultural e o contato com práticas artísticas que não eram do meu conhecimento, testar e estudar técnicas passou a se mostrar como um elemento fundamental na criação de uma obra. O errar não existe quando se trabalha com a arte; ele é parte da concepção do pensamento crítico e da construção dos resultados finais.”
Na sua carreira acadêmica e profissional, Ayane destaca sua qualificação no XXXIV Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil (CONFAEB) e XII Congresso Internacional de Arte/Educadores (CONIAE) no ano de 2025, com o resumo expandido “Museu Memória Alto do Mateus” ao lado de sua companheira de projeto (PIBID) Francisca Vaz, pois foi a primeira vez em que ela pôde ter a comprovação de que suas perspectivas poderiam alcançar e realmente fazer diferença em meio aos processos de arte/educação. Ao longo de seu percurso, ela também acumulou participações em exposições. A primeira delas, ao ingressar no curso, foi a mostra coletiva “Gabinete do Acúmulo”, aberta em 15 de março de 2023, que trouxe algumas das produções artísticas dos estudantes durante o período da pandemia de COVID-19. Posteriormente, esteve presente na exposição coletiva “Fronteiras”, iniciada em 10 de março de 2025, onde apresentou a série fotográfica “Árvores & Postes”, que estabelece um paralelo entre a estrutura urbana de ferro e fios e os elementos naturais de madeira e galhos, além do trabalho audiovisual “Silêncio”, que questiona a impossibilidade do silêncio absoluto em uma sociedade viva. Ainda na exposição “Fronteiras”, Ayane Santana integrou a comissão de mediação no encerramento do evento, em 18 de março. A roda de conversa reuniu alunos de diversos cursos, como Psicologia, Geografia, Arquitetura e Artes Visuais, aproximando perspectivas biológicas, ambientais e humanas para romper as barreiras físicas e curriculares da UFPB.
Atualmente, Ayane Santana integra o PIBID do curso de Licenciatura em Artes Visuais da UFPB, atuando na Escola Municipal Doutor Severino Patrício, no bairro Alto do Mateus, em João Pessoa. O programa proporciona o primeiro contato dos futuros professores com o cotidiano escolar, promovendo a aplicação prática dos conteúdos acadêmicos por meio da criação de aulas e experimentos artísticos. Paralelamente, a artista participa da oficina de aquarela ofertada pelo professor Gabriel Bechara Filho na UFPB, nas quais explora os materiais para o aperfeiçoamento da técnica.
Ao aprofundar a discussão sobre seus trabalhos artísticos e sua poética, Ayane Santana destaca uma obra da qual se orgulha: “Víbora”, um projeto em stop motion feito com desenho digital. A artista conta que a ideia surgiu em um momento de inquietação com as frequentes notícias de violência contra a mulher, casos de companheiros que buscavam vingança após o fim de relacionamentos ou de homens que se achavam no direito de punir atitudes femininas que julgavam incorretas. Diante desse cenário, a figura da Medusa passou a habitar sua mente com intensidade. Ela relata: “Quando esta violência também me atingiu, foi como levar um banho de água fria: eu não estava segura, pelo simples fato de ser mulher. A violência, podre e crua, poderia chegar a todas, minhas familiares, amigas ou desconhecidas, e é assim que “Víbora” deu seus primeiros passos. Ela é um retrato de um grito de dor e revolta, os pensamentos que rondam as mulheres durante simples deslocamentos em transportes urbanos. Ela foi minha companheira e fiel ouvinte, por isso tenho por esta obra tal estima.”
No presente a artista desenvolve o trabalho “O Feminino e as Conchas Marinhas: Já Fui Pérola”, que consiste em uma série com peças de cerâmica. Ela explica que a série está vinculada a uma pesquisa iconográfica com a História da Arte e o vínculo entre as figuras das conchas marinhas e o feminino. A imagem da concha nos retratos de mulheres muitas vezes foi utilizada para exaltar um feminino de servidão, gentil e obediente, tendo o ponto de partida de um feminino específico dentro de mulheres de elite que viam o casamento como sua única forma de imaginar o futuro ao sair da casa de seus pais. Ela utiliza a argila para moldar as próprias conhas, com apenas uma breve associação às espécies reais, uma forma de observar um local que pertence ao passado, as mulheres não escondem-se mais. Adiante pretende aprofundar essa temática em seu trabalho de conclusão de curso.
Para Ayane Santana, a arte é parte indivisível de sua identidade e parte importante da forma como se expressa e se coloca no mundo. Ela diz: “Quando passa tanto tempo observando sua própria vivência com um olhar aberto para a arte existente nas mais pequenas coisas, não se pode fechá-lo novamente. A arte é a única maneira que conheço de me comunicar, colocar para fora as coisas e pensamentos mais profundos que guardo e me consomem; nisto, a prática de escrever pequenas histórias e poemas baseados em aspectos da vida real estende-se também para o fazer: estar com as mãos ocupadas com folhas de cadernos e lápis, além dos dedos sujos de tinta. Viver sem arte seria ilusório. Certas atividades existem para promover e possibilitar a vida; a arte é uma delas.”
Sobre a relação entre sua produção artística e o território onde reside, Ayane Santana afirma que suas vivências caminham lado a lado com suas criações. A artista explica que suas obras são atravessadas por suas perspectivas de vida, classe social, estudos e dinâmica familiar, motivo pelo qual não podem afastar-se de onde nasceu e mora. “Sou alguém que pode contar nos dedos de uma única mão as vezes em que saiu do estado de origem, tudo que observei foi minha casa, minha rua, minha cidade e meu estado, não por completo, uma pequena parte dele. Tudo que conheço resume-se às minhas vivências e elas são o retrato falado do meu fazer artístico.”
Sua atuação contribui para o cenário paraibano, pois, como explica a artista, olhar para a cultura local é também olhar para dentro da sala de aula e contribuir com ela. Para Ayane Santana, atuar como docente e discente no estado onde nasceu é uma forma de manter vivo um ciclo contínuo de aprendizagem, colaborando na formação da futura população que atuará como cidadã consciente e responsável pelos rumos do país. Trata-se de uma profissão eminentemente política, que envolve a valorização da identidade nacional sem egocentrismo ou brutalidade, mas pautada no pertencimento, no respeito à história e no exercício constante do pensamento crítico.
A artista também destaca a importância de preservar saberes tradicionais que marcaram sua história: as chamadas “artes menores” que, como ela própria afirma, de menores não têm nada. Trata-se de práticas geralmente transmitidas entre as mulheres da família, funcionando como um meio de manter vivo o laço afetivo, feminino e cultural.
“Tive o privilégio de receber como herança instrumentos de criação de mundo como as agulhas, passadas de mãe para filha, de avó para neta. As mulheres em minha família, também ligadas ao artesanato ensinaram-me com paciência e possibilitaram-me abrir meu leque de oportunidades em desenvolver minha prática das mais variadas formas. Da pintura ao crochê, não se desaprende mesmo depois de tempos, é como aprender a andar de bicicleta.”
De acordo com a artista, o momento mais importante de sua trajetória é o presente, pois ele é o fruto de sua dedicação, dos períodos de dúvida superados sobre a própria prática artística, das amizades que se foram e das que surgiram, além dos conceitos e estudos que a atravessaram e continuam a atravessá-la. A artista valoriza o agora como uma forma de honrar seu passado e projetar o futuro. Ela destaca que pretende se manter como arte/educadora e seguir na carreira docente, sem jamais se desvincular da produção artística, buscando futuramente um aprofundamento na vida acadêmica. Ao pensarem em sua história, Ayane deseja que as pessoas a vejam como alguém que experimentou de tudo um pouco e não se restringiu a um único momento ou técnica. Como ela própria sintetiza: “Espero ser lembrada como alguém que olhava para as pequenas coisas de forma diferente, que observa o mínimo através da imaginação e perspectiva de sensibilidade.”
Fontes:
Entrevista realizada por Valéria da Silva Avelino em 22 de agosto de 2026.
Portfólio da série “O Feminino e as Conchas Marítimas: Já Fui Pérola” – https://drive.google.com/file/d/1QlkPH_RWdXzqXOPnxpF_txDDbaVGEdfh/
Portfólio da obra audiovisual “Víbora” – https://drive.google.com/file/d/1u1VJJEeOMStXemDqeOBHDhEcLARpOezM/
Séries de fotografias “Olhe para cima” – https://docs.google.com/presentation/d/1K63oaMMqPFxN-Wo0sgua8NJFd1dvV8vdrrTKSs9ja0k/
Série de fotografias “Árvores & Postes” e audiovisual “Silêncio” –
https://docs.google.com/presentation/d/1Ph2zcrXVdOW6T7pa-Ksb_Kx7OYYdMooFmJ6dTVYjfuo/