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Data de publicação do verbete: 06/11/2026

Cinema em círculo: cineclubismo, cultura e disputa de sentidos na Paraíba

Cinema em círculo: cineclubismo, cultura e disputa de sentidos na Paraíba

Uma análise histórica sobre a atuação dos cineclubes na Paraíba, destacando o papel das salas de exibição como locais de sociabilidade, crítica e resistência cultural.

Texto: Graziela Vieira

Os cinemas urbanos, ao longo do século XX, foram atravessados pela transformação cultural provocada pela emergência e pela consolidação do cinema como linguagem artística. Na Paraíba, ou melhor, Parahyba, esses espaços constituíram lugares de disputa cultural, nos quais diferentes maneiras de compreender a arte cinematográfica, seus públicos e suas possibilidades sociais entraram em contato. O fenômeno-cinema, portanto, ultrapassava o ato de assistir a um filme: transformava-se num espaço de sociabilidade, formação crítica e circulação de ideias. É nesse cenário que o cineclubismo se estabelece como uma prática particularmente significativa para a história cultural paraibana.

A divulgação e estudo da cultura cinematográfica na Parahyba nasce na década de 1950; a iniciativa concretizou-se com a criação do Cineclube de João Pessoa que reuniu, sob a liderança de José Rafael de Menezes com a participação dos padres Antônio Fragoso e Luís Fernandes, jovens interessados em cinema, traçando uma rotina para além do consumo de filmes, mas da procura de os compreender, discutir e produzir cinema.

O Cineclube de João Pessoa funcionava à noite com filmes selecionados de empresas produtoras dos Estados Unidos e demais países onde a indústria cinematográfica estivesse em desenvolvimento. Tal atividade cinematográfica contribuiu para a formação de um ambiente no qual cinema, crítica e produção passaram a se alimenta mutuamente. Essa experiência antecedeu e ajudou a formar parte dos sujeitos que participariam, posteriormente, da renovação cinematográfica do estado.

Essa dimensão formativa alcança figuras como Paulo Pires Braga, Jomar Muniz de Britto, José Ramos e Virgínius da Gama e Melo, Vladimir Carvalho, entre outras. Para além disso, o locus cinematográfico delineava-se irrestritamente às salas comerciais, adentrando escolas, teatros, museus, centros operários, associações e demais espaços que constituíam circuitos de circulação de imagens.

A partir desse dimensionamento do ver, discutir e fazer cinema, percebe-se o grau de disputa cultural do cineclubismo. Nos anos seguintes, não apenas o Cineclube de João Pessoa teve atividade, outros cineclubes foram montados na Parahyba principalmente após 1964 a fim de se conectar mais explicitamente com questões políticas e sociais.

A triagem cultural experienciada durante a Ditadura Empresarial-Militar atingiu diferentes formas de organização cultural. A historiografia sobre o movimento cineclubista brasileiro identifica justamente uma transformação entre o cineclubismo voltado prioritariamente para a formação estética e aquele que, durante os anos de autoritarismo, passou a assumir também funções de resistência política e cultural. 

Articulando exibição cinematográfica à formação de públicos e à compreensão do cinema como manifestação artística e fenômeno social, a origem da Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba (ACCP) fez com que a prática cineclubista ultrapassasse progressivamente a sala de exibição. A prática clubista parahybana avançou a zona da mata do estado, alcançando Campina Grande — que teve seu auge no fim dos anos 60 —, Areia e demais cidades.

No entanto, a iniciativa de renovação cultural que havia caracterizado parte do movimento foi interrompida pelo golpe e, posteriormente, intensificada pela repressão decorrente do AI-5, quando grande parte dos cineclubes brasileiros encerrou suas atividades. É justamente nessa tensão entre controle e circulação que o cineclubismo se fortalece enquanto prática de resistência cultural. Resistir, nesse caso, não significa necessariamente que cada sessão cinematográfica apresentasse uma oposição explícita ao regime, mas reconhecer que a manutenção de espaços coletivos de exibição, crítica e debate preservava possibilidades de interpretação que a censura procurava limitar. A experiência acumulada desde o Cineclube de João Pessoa permitiu que o cinema continuasse sendo pensado para além do entretenimento, como linguagem capaz de provocar discussões sobre sociedade, cultura e política. 

Mesmo diante das interrupções impostas, na Parahyba, foi continuada a tradição crítica que atravessa diferentes gerações de cinéfilos, críticos e realizadores — desde o ancestral Cineclube de João Pessoa até o contemporâneo Cineclube Barravento. Desse modo, a resistência cineclubista não se encontrava somente naquilo que era dito durante uma sessão, mas também na própria possibilidade de continuar reunindo pessoas em torno das imagens, transformando o ato de assistir em uma experiência coletiva de interpretação do mundo. 

Referências

GAUDÊNCIO, Bruno Rafael de Albuquerque; BURITI, Catarina de Oliveira. A crítica em tempos de repressão: movimento cineclubista campinense nos anos 60, 70 e 80. In: XII ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA, 2006, Cajazeiras. Anais […]. Cajazeiras: ANPUH-PB, 2006. Disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/38198. Acesso em: 18 set. 2026. 

LISBOA, Fátima Sebastiana Gomes. O movimento de cineclubes na América Latina: civilizacionismo e engajamento político. Argentina e Brasil (1940-1970). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 23., 2005, Londrina. Anais […]. Londrina: ANPUH, 2005. Disponível em: https://www.encontro2016.pr.anpuh.org/resources/anais/anpuhnacional/S.23/ANPUH.S23.0354.pdf. Acesso em: 18 set. 2026. 

LEAL, Wills. Um movimento com forte apelo católico ou a chegada da cultura cinematográfica. In: LEAL, Wills. Cinema na Paraíba/Cinema da Paraíba: primeiro volume. João Pessoa: Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho/Gráfica Santa Marta, 2007, p. 115-144.

NASCIMENTO, Talita Hanna Cabral. Da estratégia cultural ao reconhecimento político: retomada das movimentações estudantis da UFPB na década de 1970. Em Perspectiva, Fortaleza, v. 10, n. 2, p. 182-201, 2024. DOI: 10.36517/emperspectiva.v10i2.94011. Disponível em: https://periodicos.ufc.br/emperspectiva/article/view/94011. Acesso em: 18 set. 2026. 

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