Entrevista, pesquisa e texto: Mateus das Neves
Município de origem: Rio Tinto – PB
Comunidade de origem e atuação: Barra de Mamanguape
Manifestação cultural: Coco de Roda
Ano de criação: 2020
Integrantes: Leandro Luz, Miguel Lua, Dona Antônia, Rosa, Maria, Beto, Jairo, Aninha, Lívia, Paula e Luana Flores, entre outros participantes.
Instagram: @grupococodemare
O Coco de Maré é um grupo de Coco de Roda da comunidade Barra de Mamanguape, no município de Rio Tinto, Paraíba, criado em 2020 por iniciativa de Leandro Luz e Miguel Lua, com o propósito de compartilhar a brincadeira com os moradores da comunidade. Surgido durante a pandemia de Covid-19, o grupo começou com rodas que reuniam pessoas de diferentes gerações e, ao longo de sua trajetória, passou a desenvolver um trabalho de pesquisa, troca de saberes e valorização da memória do coco de roda. Sua prática é influenciada por mestres e mestras como Mestra Senhorinha e Mestre Raminho, de Barra de Camaratuba, e Mestra Ana, do Coco de Roda Novo Quilombo, e se caracteriza pelo aprendizado coletivo, pela diversidade de formas de brincar e pelo acolhimento de pessoas de diferentes origens e experiências culturais.
Uma das primeiras brincadeiras que marcou a formação do grupo contou com a participação de Luana Flores e Curva de Ryo e despertou o interesse da comunidade, recebendo o apoio do padre e de outros moradores, que contribuíram financeiramente para a aquisição de instrumentos. A iniciativa também foi motivada pelo desejo de realizar o sonho do vizinho Sr. Burica, que queria ter uma zabumba e cuja mãe brincava coco de roda quando ele era criança. Para ajudá-lo a aprender a tocar o instrumento, Leo e Miguel buscaram vídeos na internet e a orientação da Mestra Senhorinha e do Mestre Raminho, de Barra de Camaratuba. Aos poucos, as rodas passaram a reunir pessoas de diferentes gerações, com os mais velhos compartilhando cocos antigos e os mais jovens aprendendo os cantos e as formas de brincar.
Durante o primeiro Festival Literário da Barra, realizado on-line, o grupo foi convidado a representar a cultura local em uma transmissão ao vivo, ocasião em que adotou o nome Grupo Barra do Coco. Posteriormente, após divergências entre integrantes e a formação de outro coletivo na comunidade, o grupo passou a se chamar Coco de Maré. Desde então, manteve as rodas e a participação nas comemorações da vila e das comunidades vizinhas. Entre seus integrantes, destaca-se Dona Antônia, a mais velha do grupo, que contribui para a preservação da memória do coco ao compartilhar cantos antigos e transmitir esses conhecimentos às suas netas, também participantes das rodas.
A brincadeira do Coco de Maré reúne pessoas de diferentes origens, idades e experiências culturais. Entre os instrumentos utilizados estão pandeiro, ganzá, maracá, zabumba e triângulo. O grupo ainda não possui figurino específico, mas seus integrantes costumam utilizar roupas floridas nas rodas. O repertório combina cantos antigos, que foram aprendidos com pessoas mais velhas e com mestres e mestras, e composições autorais criadas por diferentes integrantes. Essa diversidade de referências faz parte da maneira como o coletivo compreende sua prática, procurando acolher distintas experiências e construir uma brincadeira aberta à participação de todos.
Os integrantes do Coco de Maré compreendem o grupo como um coletivo de pesquisa e aprendizagem voltado à salvaguarda da memória do coco de roda, aberto à diversidade de formas de brincar provenientes de diferentes regiões e comunidades. Entre suas principais referências estão a Mestra Senhorinha e o Mestre Raminho, de Barra de Camaratuba; a Mestra Ana, do Coco de Roda Novo Quilombo; o Coco de Parêa de Caetés, em Pernambuco; o Coco Santa Luzia; o Coco Raízes de Arcoverde; e o coco do Mestre Benedito, de Cabedelo, na Paraíba. O aprendizado acontece por meio do contato com mestres e mestras e das trocas entre os próprios integrantes, em um processo coletivo no qual todos ensinam e aprendem. Cantos, versos, instrumentos e formas de brincar são compartilhados durante as rodas.
Para o Coco de Maré, o coco de roda representa união, brincadeira, espiritualidade e política, constituindo um espaço de expressão, alegria e fortalecimento pessoal, mesmo diante das dificuldades cotidianas. Os integrantes compreendem a manifestação como parte da memória ancestral das culturas populares brasileiras e valorizam a roda como lugar de convivência e celebração da vida. O grupo também busca constituir um espaço inclusivo e seguro, no qual pessoas LGBTQIA+, representantes de comunidades tradicionais, homens, mulheres e crianças, com diferentes crenças e referências culturais, possam se encontrar e brincar. A liberdade de participação e o acolhimento da diversidade são princípios fundamentais para o coletivo, que não exige compromisso rígido dos integrantes, permitindo que cada pessoa participe conforme sua disponibilidade e vontade.
O Coco de Maré também busca o reconhecimento de sua participação no ressurgimento e na continuidade das brincadeiras de coco de roda na Barra de Mamanguape, destacando a importância de registrar sua trajetória desde 2020, suas relações com a comunidade e os conhecimentos construídos ao longo de sua atuação. Para o futuro, o grupo pretende gravar seu primeiro EP, reunindo cocos autorais de seus integrantes, e dar continuidade às rodas e à transmissão dos saberes entre gerações. Sua trajetória evidencia o papel das iniciativas culturais independentes na preservação das memórias locais, na criação de espaços de participação e na valorização da diversidade das manifestações populares da Paraíba.
Fontes:
Entrevista com integrantes do Coco de Maré concedida a Mateus das Neves em outubro de 2026.
O COCO DA BARRA DE MAMANGUAPE – PB FLIBA Festa Literária da Barra do Mamanguape Live Stream