Pesquisa e texto: Sandra da Costa Vasconcelos
Naturalidade: Picuí – PB
Atividade artístico-cultural: cinéfilo
Instagram: @ivancineminha
Ivan Araújo Costa, ou Ivan Cineminha, como é conhecido, é cinéfilo de carteirinha, aquele que ama o cinema como arte ou forma de lazer, aquele que se interessa por sua evolução e suas realizações. A definição do cinéfilo é essa. Cineminha começou o gosto por cinema desde os 6 anos de idade e aos 7 anos já começava a anotar o nome dos filmes. Veio morar em João Pessoa no fim de 1956 e diz que desde 1952 acompanha a trajetória do cinema. Ele é muito saudosista e adora os filmes antigos, acompanha o cinema de perto e é um pesquisador que gosta de cinema como todo pesquisador deve gostar. No caso dele, porém, além de gostar muito, Cineminha vive cinema o dia todo e todo dia.
Ivan fala de cinema como gente que ama o cinema. Um amador. Nunca desejou – nem deseja – ser um crítico ou ator de cinema, para ele o cinema é a sua vida. Difícil encontrar Cineminha na sua “casa-cinema” sem que esteja “fuçando” um velho filme preferido, ou com os olhos cansados de tantas cenas procurando nos mais diferentes livros sobre cinemas os “cortes” de cenas que muitos estudiosos da matéria cometem nas suas – deles – narrativas.
Nada passa despercebido diante dos olhos curiosos de Cineminha. O nome do filme original – chama a atenção – quase sempre nada tem a ver – a expressão é essa mesma, “a ver” – com o nome que lhe deram, para que se tornem por aqui ou em alhures um produto mais vendável. Nomes de atores, diretores, cenas, música, roteiro, nada lhe escapa! Munido de seu caderno, ele anota (e decora de tanto que relê) todas as milhares de sessões às quais fez parte ao longo da vida.
Sua predileção são os filmes dos anos de 1960, especialmente os estrelados por Elvis Presley. Também é um fã fervoroso dos poucos longas rodados com os The Beatles. Como os filmes em geral passavam no Recife muito antes de chegarem a João Pessoa, ele costumava viajar ao Estado vizinho para assisti-los com antecipação.
Enquanto os cinemas de bairro iam sumindo, a sua fama de cinéfilo incomparável foi se espalhando, sobretudo por sua memória atilada, capaz de recordar todos os milhares de filmes que viu, em especial aqueles da Era de Ouro do Cinema. Ao ser entrevistado por Jô Soares (1995), ganhou notoriedade nacional.
Diante do perspicaz entrevistador, ele foi brilhante nas suas respostas e réplicas, deixando todo mundo admirado com o seu extenso conhecimento dos filmes de todas as épocas.
A ida ao Programa do Jô, em 1995, foi seguida por um amplo reconhecimento do seu valor para a Sétima Arte e o início de experiências inesquecíveis.
Começou sendo entrevistado pela revista SET, considerada a mais importante publicação brasileira sobre cinema de todos os tempos. Em seguida, recebeu de Luciano Vanderley, lendário dono de salas de exibição, passe livre para frequentá-las. Ainda foi imortalizado no importante livro “Cinema na Paraíba”, de Wills Leal.
Anos mais tarde (2000), retornou ao Programa do Jô para conhecer, conversar e debater com Anthony Quinn, um dos melhores atores de cinema de todos os tempos. Ele considera o encontro com o mítico ator o grande acontecimento da sua vida de cinéfilo. Causou impressão excelente quando o surpreendeu com um fato da carreira dele desconhecido da maioria. O ator, por sua vez, ficou admirado com a estupenda memória do fã.
Nos anos que se seguiram, ele foi entrevistado por praticamente todos os veículos de comunicação da Paraíba, tornou-se tema de reportagens, passou a constar obrigatoriamente em obras afins, participou como convidado de honra em diversos eventos ligados ao cinema. Suas anotações se tornaram documentos valiosos de pesquisa.
De todas as homenagens que ele recebeu, foi marcante ter a própria história de vida narrada no documentário “O Contador de Filmes” do cineasta Elinaldo Rodrigues (2010), que pode ser encontrado no YouTube. No curta aparecem as imagens da sua trajetória com o cinema, com a preciosa participação de Picuí e de picuienses como coadjuvantes. Foi mostrado o local onde um dia funcionou o Cine Guarany, a casa onde ele nasceu e viveu, além do deslumbrante crepúsculo picuiense.
Quando se divorciou, passou a residir sozinho e montou uma moradia contendo tantos discos e fitas de vídeo que alguém chamou de “casa-cinema” onde habitava um “homem-ilha”. Nesse ambiente ele via filmes e lia muitos textos sobre filmes, atores e diretores. Tinha especial interesse em saber o título original dos filmes e sua adaptação para a língua portuguesa. Era comum seus olhos atentos encontrarem erros nos textos dos críticos mais conhecidos.
Podemos dizer que ele respira cinema, pois até os nomes dos seus filhos Elvis (Presley), Vanessa (Redgrave) e Maxilian (Schell) foram homenagens às estrelas da telona. O cinema, durante muitos anos, foi o único tipo de diversão das cidades pequenas. Mas não era um lazer qualquer, porque um filme é capaz de mexer com o pensamento crítico, enriquecer o diálogo, permitir a transição por diferentes campos sociais e até mesmo fortalecer o gosto pela arte. Todos estes benefícios moldaram o caráter de Ivan Araújo Costa que, mesmo tendo como único objetivo assistir filmes, enriqueceu sua existência através de experiências inesquecíveis que enchem de orgulho os seus patrícios de Picuí.
Ivan Cineminha, foi um dos grandes homenageados na 19ª edição do Fest Aruanda, em 2024, foi reconhecido por sua trajetória apaixonante no universo da sétima arte. Com uma história de amor ao cinema que inspira gerações, Ivan é símbolo de dedicação e de valorização da cultura audiovisual.
Fontes:
https://apostiladecinema.com.br/programa-personagem-de-cinema-parte-ii/
https://www.auniao.pb.gov.br/noticias/colunistas/andre-cananea/cinema-de-calcada-uma-nostalgia
http://humbertodealmeida.com.br/ivan-cineminha-a-vida-na-tela/