Pesquisa e texto: Maria Beatriz Paulino
Gênero: Espetáculo teatral
Duração: 1h20min
Ano de produção: 2015
Elenco: Adriano Cabral, Lara Torrezan, Paula Coelho, Ricardo Canella, Verônica Sousa, Vítor Blam, Zezita Matos
Músicos: Mayra Ferreira, Nuriey Castro
Direção Geral e Dramaturgia: Márcio Marciano
Direção de Arte e Figurino: Patrícia Brandstatter
Produção Executiva: Gabriela Arruda
Sinopse:
Memórias de um Cão parte da obra do Machado de Assis, especialmente do romance Quincas Borba, para construir uma leitura crítica das relações sociais, políticas e subjetivas no Brasil. A montagem propõe uma abordagem que evidencia mecanismos de dissimulação, engodo e autoengano presentes na formação histórica do país.
A narrativa acompanha a trajetória de Rubião, um mestre-escola do interior que, às vésperas da abolição da escravatura, muda-se para a Corte após herdar os bens de seu benfeitor, Quincas Borba, um escravocrata que se autodenomina filósofo e dedica sua vida a formulações excêntricas sobre a natureza humana. Como condição para usufruir da herança, Rubião deve cuidar do cão que leva o mesmo nome do antigo proprietário, elemento que simboliza, na prática, os princípios do chamado “Humanitismo”, doutrina fictícia cuja máxima é: “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
Inserido repentinamente na lógica do capital, Rubião passa a circular pelos espaços da elite carioca em um período de intensa modernização, buscando reconhecimento social em meio a relações marcadas por favores, aparências e hierarquias de classe. Ao mesmo tempo, o personagem mergulha em um processo de alienação que o leva a confundir fantasia e realidade, chegando a acreditar ser Napoleão III, metáfora das aspirações da elite brasileira de se projetar como moderna, mesmo sustentada por estruturas arcaicas, como a escravidão e a exploração do trabalho.
A encenação constrói uma alegoria tragicômica sobre a formação social brasileira, destacando a contradição de uma sociedade que busca se espelhar em ideais de progresso e civilização sem romper com práticas excludentes e violentas. A partir da ironia presente na obra de Machado de Assis, o espetáculo expõe a permanência histórica dessas tensões, evidenciando como a elite econômica e cultural tenta se eximir de sua responsabilidade nos processos de desigualdade e violência estrutural.
Ao articular passado e presente, Memórias de um Cão propõe uma reflexão sobre a continuidade dessas dinâmicas na contemporaneidade, sugerindo que os mecanismos de poder, exploração e autojustificação não pertencem apenas ao século XIX, mas seguem operando nas relações sociais atuais.
Em 2017, o espetáculo foi selecionado pelo programa de circulação da BR Distribuidora.
Fontes:
https://coletivoalfenim.com.br/espetaculos/memorias-de-um-cao/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/tag/coletivo-de-teatro-alfenim/