Entrevista e texto: Valéria da Silva Avelino
Naturalidade: João Pessoa – PB
Atividade artístico – cultural: Musicista
Formação acadêmica: Graduanda em História
Projetos principais: Orquídeas em Prosa, Éden, Sacrifício e Furúnculo Mental
Discografia: Lady Death (2026); Ilegalismo Electro (2026); Orquídeas em Prosa (2026)
Instagram: @orquideasemprosa
Tony Guimarães de Lima é integrante da banda e duo Orquídeas em Prosa, cujo gênero musical é o gótico. Em sua vivência, Tony relata que já na infância se interessava pela subversão e pela identificação que a arte trazia diante da exclusão do ser humano pelo ser humano. Ela conta que seu principal interesse por esse tipo de arte veio da necessidade de pertencimento, de autoconhecimento e de entender quem era por meio dela, e não pela busca de inclusão ou pelo desejo de terceiros, afirmando que trilhou esse caminho sozinha.
Ainda jovem, por volta dos 11 anos, começou a tocar bateria, tentando reproduzir arranjos simples de bandas como The Cure e Bauhaus, além de escrever letras sobre o que acontecia no seu dia a dia e que a impactavam. Atualmente, ela toca bateria, escreve músicas e manifesta a arte em si mesma, seja na maneira de vestir, de se portar ou na confecção dos seus próprios materiais artísticos. Além disso, menciona que teve breves passagens como baterista em grupos de crust punk e black metal, mas nada tão concreto quanto a Orquídeas em Prosa, projeto no qual escreve bastante e explora novos modelos artísticos em diferentes instrumentos.
Ela ressalta que um dos momentos marcantes de sua trajetória envolveu suas primeiras bandas, como Furúnculo Mental (Crust) e Sacrifício (Red and Anarcho Black Metal). Apesar de não terem saído do papel, esses projetos a incentivaram a tocar mais, aprender e ter uma noção mais abrangente das pessoas que estavam tocando com ela e do porquê de estarem ali, expressando-se cultural e divergentemente contra uma determinada hegemonia. Contudo, ela pontua o Orquídeas em Prosa em primeiro lugar porque é o primeiro espaço em que encontrou outra pessoa para tocar e demonstrar a abordagem gótica musical que já vinha desenvolvendo em outros projetos solos.
A artista relata que os melhores reconhecimentos são ouvir de amigos e companheiros que ela faz algo diferente e que isso vem de sua própria essência, tornando-se único. Inclusive, recorda que um dos únicos comentários que tem no seu projeto solo (Éden) é de um falante de espanhol que comentou “Esto es realmente raro”, sendo “raro” o equivalente a “esquisito” ou “incomum” em português. Ela considera isso um reconhecimento genuíno, justamente por sempre querer aprender, absorver e disseminar sua cultura longe da mesmice. O projeto Éden, inclusive, é um trabalho do qual tem orgulho por ter sido seu marco inicial, servindo como combustível para depender apenas de si mesma e produzir algo que a cativasse.
Para Tony, a arte e a cultura, principalmente dentro da perspectiva da música e da subcultura gótica, tratam-se de um grito interior. É uma manifestação em uma sociedade que deturpa pessoas diferentes diante de suas visões, crenças e críticas do mundo. Existir e resistir no cenário artístico-cultural carrega uma importância incomparável, por se tratar de um espaço onde sua voz vale o mesmo que a voz que a cala, xinga e repreende. Trata-se de dar voz à subversão e à beleza de si e de quem divide isso com ela.
Ao conectar a sua produção artística com a cidade onde mora, a musicista reflete: “Acho que, principalmente por se tratar de uma cidade bem preconceituosa, conformista e sem grandes individualidades do ser, crescer e viver em João Pessoa me fez ter a visão infame de como as pessoas vivem sob uma norma social que, caso quebrada, o mundo cai sobre você (ou, nesse caso, essa sociedade). Então, acho que se torna quase impossível para qualquer artista que nasça aqui não ter sido inspirado, influenciado ou questionado por um olhar, uma voz ou um ato.”
Diante disso, ela ressalta sua importância para a cena local: “Estar dentro desse cenário é uma possibilidade de mudar isso e provar que a cultura artística paraibana não reside em um seleto grupo intelectual, mas sim mostrar que a cultura paraibana está intrinsecamente ligada a lutar contra esses preconceitos e estipulações que as pessoas de fora, e até mesmo nós mesmos, temos com os outros, tanto na camada artística quanto na de ouvinte ou somente apreciador.”
A artista destaca que a vivência das pessoas LGBTQ+ dentro da cidade é a principal manifestação cultural que marca a memória e a preservação em sua arte. Isso se estende a todas as pessoas marginalizadas no meio artístico que viviam e vivem na noite e na escuridão, para que possam ter o acesso a existir dentro do próprio dialeto, da cultura noturna e da presença marcante da subversão de gênero e sexualidade que sempre existiu no berço da música gótica.
Com a música refletindo sua história de vida, ela afirma que a identidade é o valor que mais preza no ser humano. Viver da arte e expressar essa vivência ao lado de Soturna (sua dupla no Orquídeas em Prosa) permite que sua trajetória se conecte com todas as pessoas que já foram subjugadas por suas identidades, além de reforçar a importância de se posicionar politicamente. Um marco recente foi a gravação do primeiro álbum da Éden, momento em que se aproximou de Soturna e teve coragem de integrar um projeto bem elaborado.
No momento, Tony deu uma pausa no projeto solo Éden e vem se dedicando integralmente ao Orquídeas em Prosa. Para o futuro, revela a intenção de criar iniciativas voltadas à visibilidade de mulheres góticas, travestis e negras — frequentemente privadas de sua própria identidade, do consumo cultural e do direito à autoexpressão dentro da cena. Além disso, planeja lançar novos álbuns com o duo e retomar a Éden quando for o momento certo.
Para finalizar, reflete: “Sinto que somente ouvindo minha música e minha arte é possível enxergar minha humanidade e ver, nas entrelinhas, o valor que tem para nós, artistas, conseguir produzir e realizar algo. Mesmo sem a intenção de que o som alcance centenas de pessoas, desejo apenas que a música e a cena gótica se consolidem como um espaço político e cultural que permita às pessoas simplesmente existirem.”
Fonte:
Entrevista com Tony Guimarães de Lima concedida a Valéria da Silva Avelino em 21 de setembro de 2026.