Desfile especial acontece no Sábado de Zé Pereira, 14 de fevereiro de 2026, na Avenida Rui Barbosa, com frevo, samba, recital de poetas, entrega de comendas e uma programação que transforma o Carnaval em celebração da memória coletiva.
Gustavo Roberto

O ano era 1996 quando as ruas do bairro da Torre viram passar, pela primeira vez, a tromba imponente de um elefante que viria a se tornar símbolo de resistência cultural, memória afetiva e identidade popular no Carnaval de João Pessoa. Três décadas depois, em 2026, o Bloco Elefante da Torre celebra seu Jubileu de Pérola, reafirmando que Carnaval também é história, pertencimento e transmissão de saberes entre gerações.
No próximo sábado, 14 de fevereiro, durante o tradicional Sábado de Zé Pereira, o Elefante ocupa a Avenida Rui Barbosa, no bairro da Torre, com uma programação especial que une frevo, samba, poesia, artes visuais e literatura de cordel, homenageando o clássico “O Romance do Pavão Misterioso” e os poetas paraibanos que mantêm viva essa tradição. Mais do que uma festa, o desfile dos 30 anos é um gesto de resistência cultural.
“O Elefante é isso: é preservar aquilo que a gente viu na infância e passar para quem vem depois. Cultura é conhecimento transmitido da criança ao adolescente, do adolescente ao adulto”, afirma Flauber da Silva Santos, fundador, idealizador e presidente do bloco.
Entre as passagens mais marcantes da trajetória do Elefante da Torre está a construção de uma alegoria que entrou para a memória do bairro: um elefante gigante, com cerca de três metros de largura e seis metros de comprimento, confeccionado dentro da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no setor de Artes, com a colaboração do professor Breno Matos.
“Esse elefante saiu da universidade à noite, com carros de vizinhos acompanhando, piscas ligados, buzinas tocando, e entrou no bairro da Torre passando pelo Rio Jaguaribe, que a gente chama de Rio do Paú, até chegar ao local onde o bloco foi fundado”, relembra Flauber.
A imagem do elefante atravessando a cidade, acompanhado por moradores, músicos e foliões, simboliza o encontro entre a universidade, a arte e a cultura popular, uma marca que acompanha o bloco até hoje.

O Elefante da Torre nasce oficialmente na esquina da Rua Geminiano da Franca com a Avenida Rui Barbosa, nas proximidades da antiga Panificadora Santo Antônio, então pertencente ao empresário Albertino Alfredo de Araújo. Foi ali que um grupo de vizinhos decidiu transformar as lembranças de infância em ação cultural.
Entre os fundadores estão Flauber da Silva Santos, Marcos Antônio de Manguito, João Evangelista, Filipe Ramos Pereira, João Batista dos Santos Filho e Cauim Ferreira das Neves Santos.
“A gente viu isso tudo desde pequeno: os blocos, os ursos, as troças, as batucadas, o coco de roda, as tribos indígenas e africanas da Torre Folclórica, que existem até hoje. O Elefante nasce desse chão”, destaca o fundador.
Uma das marcas mais fortes do Elefante da Torre é a presença do urso carnavalesco, conhecido no bairro como ala ursa. Para Flauber, esse elemento não é apenas folclórico, mas profundamente pedagógico.
“Na nossa infância, cada menino fazia seu próprio bombo, sua fantasia, sua máscara, usando saco de estopa, saco de farinha que vinha da feira ou da padaria. Era tudo feito à mão. O Elefante preserva essa memória”, conta.
Mesmo que hoje os materiais sejam outros, o espírito permanece: a cultura nasce do fazer coletivo, do improviso, da criatividade popular.
Durante anos, o Elefante da Torre foi bloco de arrasto, saindo à noite da Praça São Gonçalo, percorrendo ruas do bairro e, em momentos especiais, realizando trajetos históricos — como a volta completa na Lagoa do Parque Solon de Lucena ou o encontro com o bloco Muriçoca, na Avenida Epitácio Pessoa.

Com o tempo, o bloco passou por transformações. Atualmente, acontece em formato fixo, com palco, som, tendas e estrutura de apoio.
“Hoje o Elefante é fixo, mas isso não é abandono da rua. É uma pausa estratégica. Quando houver condições, a ideia é ter uma parte fixa e outra em arrasto, retomando esse diálogo com a cidade”, explica Flauber.
Para celebrar o Jubileu de Pérola, o bloco realiza a entrega de 30 comendas, em referência direta aos seus 30 anos de existência. Os homenageados são os chamados Filhos e Filhas da Torre, pessoas que ajudaram a construir a história do bairro e do Carnaval local.
“Do operário ao doutor, do trabalhador à dona de casa, do artista ao comerciante. O Elefante é esse encontro de histórias”, afirma o presidente.
O gesto simboliza também o reencontro de antigos moradores que, com o crescimento urbano, migraram para outros bairros de João Pessoa e cidades vizinhas, mas mantêm laços afetivos com a Torre.
O tema dos 30 anos é a Literatura de Cordel Paraibana, com homenagem especial ao Romance do Pavão Misterioso, uma das obras mais emblemáticas da tradição nordestina.
O evento contará com recital de poesia, participação de poetas de João Pessoa e do Brejo Paraibano como Guarabira, Araruna e Mulungu, além de tendas para venda de livros e cordéis, fortalecendo a economia criativa e dando visibilidade aos autores.
“O cordel e os emboladores de coco muitas vezes ficam esquecidos. O Elefante dá essa força, esse espaço, esse palco”, destaca Flauber.
A trilha sonora do Elefante da Torre também é parte essencial de sua identidade. O bloco possui um repertório próprio, com cerca de 10 a 11 músicas autorais, compostas por artistas do bairro e da cidade, funcionando como verdadeiros hinos da agremiação.
Entre os nomes estão Gil de Rosa, Junio Itagidino, Dida Fialho, Clementino Lins, Humberto Almeida, Larri Alves e Byaia, reforçando o compromisso do bloco com a valorização da música paraibana.
Serviço
Elefante da Torre | 30 anos
Data: sábado, 14 de fevereiro de 2026 (Sábado de Zé Pereira)
Horário: das 10h às 21h
Local: Avenida Rui Barbosa, nº 535 – Torre (ao lado da Panificadora Imperial)
Tema: Literatura de Cordel Paraibana – O Romance do Pavão Misterioso
Programação:
• 10h – Abertura com poetas e manifestações populares
• 11h30 às 13h30 – Recital de poesia com Aroldo Camelo, Chico Mulungu, Robson Jampa (e outros) e entrega das 30 comendas
• 13h30 – Kojac do Banjo
• 15h30 – Orquestra Porta do Sol
• 17h30 – Helton Souza
• Participações: PS Carvalho, Byaia, Dida Fialho e Kennedy Costa
Entrada: gratuita