Inspirado na obra de Mia Couto, o trabalho idealizado por André Morais soma quatro indicações e consolida o teatro paraibano no cenário nacional
Gustavo Roberto

O espetáculo “Memórias de Terra e Água”, idealizado e protagonizado pelo artista paraibano André Morais, vem se consolidando como uma das produções mais expressivas do teatro brasileiro recente. Baseado em contos do escritor moçambicano Mia Couto, o trabalho une dramaturgia, música e performance para abordar temas como natureza, ancestralidade, desejo, resistência e finitude, conectando a poética africana à identidade nordestina.
A montagem recebeu quatro indicações na edição 2025 do Prêmio Cenym de Teatro Nacional, promovido pela Academia de Artes no Teatro do Brasil (ATEB) — uma das mais prestigiadas premiações do país. As nomeações contemplam Fabiano Diniz, na categoria Melhor Iluminação ou Uso da Luz, e Viktor Makeba, indicado em Melhor Trilha Sonora Original ou Adaptada, Melhor Sonoplastia, Efeitos Sonoros ou Trilha Fragmentada e Melhor Execução e Qualidade de Som.
Dirigido cenicamente por Lúcia Serpa, o espetáculo tem direção musical e sonoridade assinadas por Viktor Makeba e desenho de luz de Fabiano Diniz. A dramaturgia e a interpretação ficam a cargo do próprio André Morais, que imprime à obra uma linguagem híbrida e sensorial, atravessada por música ao vivo e referências afro-diaspóricas.
Desde sua estreia, Memórias de Terra e Água vem percorrendo uma trajetória de destaque, com apresentações em cidades da Paraíba como Sousa, Cajazeiras, Cabedelo e João Pessoa e em polos importantes do Nordeste, como Juazeiro do Norte e Fortaleza (CE), Natal (RN) e Recife (PE). A circulação nacional se ampliou com uma temporada de 16 apresentações no Rio de Janeiro, realizada por meio do Edital Sesc Pulsar.
O reconhecimento também vem de outras frentes: o espetáculo já aparece entre os indicados aos Prêmios Shell de Teatro e APTR, duas das mais tradicionais distinções das artes cênicas brasileiras. Para André Morais, que acumula mais de 20 anos de trajetória entre teatro, música e cinema, o destaque nacional reafirma a potência da produção cultural paraibana.
O trabalho de Fabiano Diniz, responsável pela iluminação da montagem, já havia sido reconhecido anteriormente pelo Prêmio Shell de Teatro (edição 2024). Já Viktor Makeba assina a ambientação sonora e traz à cena a percussão ao vivo, elemento essencial para a atmosfera ancestral e sensorial da obra. A direção de Lúcia Serpa se destaca pela abordagem sensível ao corpo, à música e ao espaço cênico, costurando uma estética que equilibra intensidade poética e rigor técnico.
Com o sucesso de Memórias de Terra e Água, a produção paraibana reafirma seu lugar no mapa cultural brasileiro, rompendo as fronteiras entre o local e o nacional. A obra simboliza o vigor criativo que emerge do Nordeste e se expande para os grandes centros, provando que da Paraíba também se faz teatro de porte nacional, com equipe técnica qualificada, circulação ampla e reconhecimento crítico.